Por Gleicy Pereira

Eu quero te perguntar de verdade: quem foi que te chamou pro terreiro? Foi a curiosidade, o desespero, a dor, a fé, o acaso? Foi Exu? Um sonho? Ou a vida gritando?
Nem todo mundo chega ao terreiro por fé. Às vezes é a dor, o medo, a perseguição, a herança, a demanda, a intuição ou a simples curiosidade. Nem todo chamado vem com som de atabaque, às vezes, é só um silêncio profundo que ninguém mais escuta, só você.
Se você chega a um terreiro, é porque algo maior já sabia o seu nome, não foi um convite qualquer, foi resposta, não foi acaso, foi caminho. O terreiro não te encontrou, você é quem voltou. O chamado espiritual vem, e a vida começa a empurrar, nada mais encaixa, algo dentro sussurra, grita ou silencia, e você começa a buscar… sem saber exatamente o quê.
Chamado não é convite, convite a gente aceita ou recusa, o chamado arranca a alma do lugar e muda tudo, mesmo que você tente correr, ele dá um jeito de te alcançar. É desconforto, barulho interno, incômodo, desassossego. Algo te cutuca, e você não sabe explicar. Ele pode vir disfarçado de dor, em forma de perda, dúvida, angústia. A vida vai te empurrando para o chão que tua alma reconhece.
Há sinais que antecedem: sonhos repetidos, sintomas estranhos, sensações sem explicação, ouvir vozes, ver vultos, vontade de ir a um lugar que você nem entende direito, intuição que insiste, doença que revela, presença que te acompanha. O chamado chega como um enigma, mas também há resistências, quase todo mundo tenta fugir antes de aceitar, seja por medo, orgulho ou dor.
E se eu não quiser?
Resistir ao chamado é se exilar da própria alma. São as desculpas que damos, o medo do julgamento, da entrega, do que vamos perder e do que ainda não conhecemos. Entrar no terreiro é entrar em si, a gira começa dentro. As partes que resistem, o ego e a humildade, os guias que nos habitam, a ancestralidade viva na carne. Tudo nos chama para o chão sagrado, para o trabalho de caridade.
Em algum momento, o chamado se revela, sempre esteve lá. Você apenas passou a ouvir, o que parecia coincidência era caminho, o que parecia castigo era lapidação, os guias sempre falaram e agora você escuta. E a dor vira direção, aquilo que não fazia sentido, agora faz.
Então o terreiro te alcança, a primeira entidade que te olha nos olhos sabe mais de você do que você mesmo. Pode ser um passe que acalma, um preto velho que te encara no fundo, um caboclo que descarrega, um erê que te faz rir, uma pombagira que te mostra o caminho, um exu que te esculhamba, uma gira que te atravessa, uma palestra que te faz refletir, uma reza que te faz chorar, uma comida de santo que te reconforta e você entende: é ali.
Mas existe o compromisso, o caminhar mesmo sem entender, a fé é continuar, mesmo cansado, ser instrumento, mesmo quebrado, servir, mesmo sem aplausos, estar presente, mesmo em silêncio, é confiar no invisível e entender que o tempo da espiritualidade não é o nosso.
Cada um vive sua jornada como pessoa de fé. Estar no terreiro não é só vestir branco e usar guias coloridas, é servir, cuidar, zelar, respeitar, errar, aprender, cair e levantar. O terreiro te forma, te molda, te pressiona, para te libertar. Ele te raspa por dentro, te dá chão e missão e é preciso entender e cumprir o que é pedido.
Às vezes, é no dia da maior dor, da falta de dinheiro, do medo mais forte, que é o dia mais importante de estar no solo sagrado.
Honre sua jornada, tenha compromisso com seu sagrado, sempre é esperado algo de você. Nem tudo é caridade, mas tudo é entrega, compromisso, verdade, honestidade, respeito. O guia quer você inteiro, mesmo com falhas, você precisa saber pedir ajuda e também saber ajudar.
Cuide da diferença entre estar no terreiro e ser do terreiro, tem gente que vem buscar respostas e o terreiro devolve perguntas, tem gente que busca alívio e recebe missão.
“A melhor roupa que eu quero que você use é um coração puro.”
— Tranca Rua das Almas
Existe uma consagração silenciosa, sem medalhas, sem anúncio. Um dia, você percebe: virou parte da casa e a casa virou parte de ti. Você se sente feliz em estar ali, mesmo que às vezes precise lutar para permanecer. Pisa no chão sagrado, e a dor e o medo se vão. Você sabe, está onde deve estar. Sua maior alegria é conversar com alguém que morreu há 300 anos e abrir o coração, ouvir conselhos, sorrir com a alma.
E você escuta, de novo, aquela voz que te chamou.
Se foi Exu, Oxalá, teu guia, tua alma ou teu cansaço… só você sabe, mas você ouviu e veio, isso basta!
Devemos refletir, com urgência, sobre nossa jornada e os chamados que ouvimos. O terreiro não é só um lugar físico, é símbolo da nossa busca contínua por sentido e conexão com o sagrado. Reconhecer e atender nosso chamado é essencial para o crescimento e realização plena.
Lembre-se que as perguntas sobre nosso chamado espiritual são tanto convite, quanto desafio. Cada um de nós é chamado a explorar o que isso significa e como podemos nos comprometer com a caminhada, levando adiante a luz que encontramos no caminho.
O sagrado cura quem se permite caminhar!

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